Numa madrugada qualquer de 2003…
o monitor CRT iluminava o quarto escuro enquanto o mIRC permanecia aberto há horas.
Os canais piscavam sem parar:
- #brasil
- #chat
- #underground
- #help
- #linux
- e alguns canais escondidos que quase ninguém encontrava por acaso.
O garoto do 386, agora alguns anos mais velho, digitava rápido demais para alguém da idade dele.
Nick colorido.
Ping baixo.
Scripts carregados.
Janela de status cheia de mensagens subindo sem parar.
Naquela época a internet parecia viva.
Cada canal tinha:
- regras próprias,
- guerras próprias,
- lendas próprias.
E existiam figuras quase míticas:
- IRCops,
- donos de bots,
- coders,
- caras silenciosos que todos respeitavam,
- e os “hackers de menu”, que usavam scripts cheios de caveira achando que eram invencíveis.
O garoto observava mais do que falava.
Aprendeu cedo que os mais perigosos quase nunca digitavam muito.
Enquanto alguns floodavam:
— “sou hacker”
— “derrubo canal”
— “tenho exploit”
os realmente experientes geralmente estavam:
- quietos,
- escrevendo script,
- analisando log,
- estudando sistema,
- ou apenas assistindo.
Uma noite aconteceu algo curioso.
Um usuário entrou num canal pequeno tentando impressionar:
— “quem quiser invasão me chama no pv”
O canal inteiro ficou em silêncio.
Alguns adolescentes acharam aquilo incrível.
Outros começaram a fazer perguntas.
Mas um operador antigo respondeu apenas:
— “garoto… você ainda acha que poder é aparecer.”
Aquilo ficou na cabeça dele.
Porque pela primeira vez percebeu algo estranho:
os caras mais inteligentes daquele mundo pareciam cansados.
Como se já tivessem visto:
- ego demais,
- destruição demais,
- moleque querendo status,
- amizades acabando,
- máquinas sendo perdidas,
- gente chorando por conta invadida,
- paranoia,
- e noites vazias diante de uma tela piscando.
Naquela madrugada o garoto minimizou o mIRC.
Olhou para o desktop lotado:
- Winamp aberto,
- bloco de notas cheio de aliases,
- wallpapers escuros,
- pastas organizadas,
- scripts,
- backups,
- ISOs,
- desenhos antigos baixando no eMule.
E pela primeira vez pensou:
“talvez existam coisas mais interessantes para construir do que para derrubar.”
Anos depois…
o mIRC desapareceria.
Os canais morreriam.
Os fóruns fechariam.
Mas aquela sensação nunca sumiu completamente.
A sensação de quando a internet ainda parecia:
- misteriosa,
- humana,
- artesanal,
- perigosa,
- e ao mesmo tempo mágica.
E talvez tenha sido justamente daquela madrugada silenciosa…
que nasceu, sem ele perceber,
a primeira ideia daquilo que um dia se chamaria Klein Dream.
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